Na sexta-feira (27), o Núcleo de Saúde e Qualidade de Vida do Sindicato dos Bancários de Piracicaba e Região se reuniu para o encontro mensal, realizado sempre na última sexta-feira de cada mês. O tema debatido foi “Falta e outras ausências”. Participaram do encontro Danielle Pagotto, Gisele Arruda, Rose Sakamoto, Igor Bernardi, Eleonora Dias, Vinicius Boldrin e Dafni Fernanda, reforçando a importância do espaço coletivo de escuta, troca de experiências e cuidado com a saúde emocional no ambiente de trabalho e na vida cotidiana.
A psicanalista Beatriz Gaspar conduziu a reflexão a partir de dois livros: A parte que falta, de Shel Silverstein, e Nota sobre aptidão e a felicidade, de Marion Minerbo. A partir dessas obras, Bia propôs uma reflexão sobre a ideia de felicidade e a noção de completude, explicando que, na psicanálise, o desejo está profundamente ligado a essa busca por felicidade.
Durante sua fala, a psicanalista abordou a experiência da privação e da ausência, especialmente quando alguém parte e deixa um vazio, um “buraco” afetivo. Segundo ela, a relação entre desejo e falta atravessa toda a vida: estamos sempre buscando algo, acreditando que, quando conquistarmos determinada coisa, seremos finalmente felizes e completos. No entanto, a noção de completude é muito mais complexa do que aparenta.
Bia explicou que o desejo é construído ao longo do tempo por meio de experiências repetidas, que vão moldando aquilo que passamos a desejar. Esses objetos de desejo não são fixos: mudam conforme a vida muda. Nesse processo, é fundamental vivenciar tanto as experiências de satisfação quanto as frustrações e os momentos mais difíceis. Aprender a conviver com limites e frustrações faz parte da própria experiência de viver.
Ela também chamou atenção para a lógica dos excessos, muito presente na sociedade atual: muitas vezes buscamos consumir mais, comprar mais, preencher vazios com coisas, o que pode gerar ainda mais frustração. Sobre a felicidade, Bia destacou que, ao contrário do que se imagina, ela não significa a realização de todos os desejos. A chamada “aptidão para a felicidade” está relacionada à forma como cada pessoa consegue conviver com aquilo que falta.
Outro ponto importante foi a reflexão sobre o “apetite pelas coisas”, que não se resume à fome física. Esse apetite diz respeito aos desejos em geral, às buscas que ultrapassam necessidades básicas. Nesse sentido, Bia ressaltou que nada é perfeito e que nenhuma conquista será capaz de suprir completamente determinadas faltas.
Por fim, a psicanalista alertou que algumas faltas podem ser conduzidas para caminhos perigosos, especialmente quando a pessoa não está preparada para lidar com determinadas questões internas. Há quem tenha dificuldade de olhar para a própria falta e de tomar consciência dela — e essa tomada de consciência, por si só, não significa completude. As pessoas não deixam de desejar, mas podem aprender, ao longo da vida, que certas faltas não serão eliminadas, apenas administradas.
O encontro reforçou a importância de espaços de escuta e reflexão coletiva sobre saúde emocional, desejo, frustração e os desafios de lidar com as ausências e incompletudes da vida cotidiana.
