{"id":10383,"date":"2021-07-23T21:43:54","date_gmt":"2021-07-23T21:43:54","guid":{"rendered":"https:\/\/site.bancariosdepiracicaba.com.br\/2021\/07\/23\/o-mito-sobre-a-honestidade-na-ditadura-militar\/"},"modified":"2021-08-11T21:55:45","modified_gmt":"2021-08-12T00:55:45","slug":"o-mito-sobre-a-honestidade-na-ditadura-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bancariosdepiracicaba.com.br\/?p=10383","title":{"rendered":"O mito sobre a honestidade na ditadura militar"},"content":{"rendered":"<p>Diante do atual cen\u00e1rio nacional um novo fen\u00f4meno vem surgindo. Esta ideia come\u00e7a a florescer h\u00e1 alguns anos, e durante as manifesta\u00e7\u00f5es ocorridas no dia 15 de mar\u00e7o, bem como nas dominadas por opini\u00f5es, ideais, as  \u201c;redes sociais \u201c; e at\u00e9 em conversas nos lugares p\u00fablicos, algumas pessoas t\u00eam falado em volta da ditadura militar para acabar com o problema da corrup\u00e7\u00e3o. Uma ideia que se lan\u00e7a e expande devido a uma desinforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3ria, ou ainda por cima se vale do mito que as For\u00e7as Armadas s\u00e3o marcadas pela honestidade, quando a realidade mostra o contr\u00e1rio, e n\u00e3o poderia ser diferente.<\/p>\n<p>Infelizmente ou felizmente, a corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um mal apenas do Brasil, a corrup\u00e7\u00e3o, como mostra a hist\u00f3ria do Brasil e do Mundo \u00e9 inerente ao capitalismo e a todos os sistemas fundamentados na explora\u00e7\u00e3o, na domina\u00e7\u00e3o de uma minoria, e penetra todas as institui\u00e7\u00f5es e o modo de pensar da sociedade. Por isso, \u00e9 comum vermos uma pessoa rica bradar contra a corrup\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, sonegar imposto de imposto de renda ou vender mercadorias contrabandeadas.<\/p>\n<p>Vale lembrar que o Brasil n\u00e3o seria um estreante no quesito ditadura. Afinal, foram 21 anos de hist\u00f3ria sob o dom \u00ednio militar. Um tempo no qual o povo n\u00e3o sabia, mas que muita coisa acontecia. Al\u00e9m do que estava estampando na realidade do povo, fatores como: arrochar o sal\u00e1rio dos trabalhadores, promover um grande desemprego, torturar, matar e esconder os corpos dos revolucion\u00e1rios que lutavam por liberdade, entregar grande parte de nossas riquezas para multinacionais, aumentar a mortalidade infantil e a concentra\u00e7\u00e3o de renda, a ditadura militar ampliou e desenvolveu a corrup\u00e7\u00e3o em nosso pa \u00eds.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o durante a ditadura<\/p>\n<p>Uma das justificativas para o Golpe Militar de 1964 foi justamente o fadado combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, os generais que comandavam a ditadura implantaram os governos mais corruptos da hist\u00f3ria do Brasil. Por\u00e9m, devido \u00e0 censura, \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o e morte de jornalistas como Vladimir Herzog, os esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o ficavam encobertos. De 1964 a 1980, o Congresso Nacional ficou proibido de instalar Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) para investigar os casos de corrup\u00e7\u00e3o. Somente em 1981, cinco antes do fim do regime militar, \u00e9 que o Congresso instalou a primeira CPI para investigar a corrup\u00e7\u00e3o no  \u201c;Caso Lutfalla \u201c;, que envolvia diretamente o ent\u00e3o governador de S\u00e3o Paulo, Paulo Maluf.<\/p>\n<p>Os esc\u00e2ndalos foram muitos. Vejamos alguns deles.<\/p>\n<p>O primeiro governo p\u00f3s golpe, foi o general Humberto Castelo Branco, em seu governo destruiu uma companhia a\u00e9rea e passou todos os seus bens para a Varig, cujo dono, Rubem Berta, apoiou o golpe e era amigo\u00edntimo dos militares. J\u00e1 na \u00e9poca, a Panair do Brasil era a maior companhia a\u00e9rea do Pa \u00eds, mas por meio de um telegrama do ministro Eduardo Gomes, da Aeron\u00e1utica, teve sua licen\u00e7a para voar cassada e o patrim\u00f4nio confiscado porque o grupo acion\u00e1rio era ligado a Juscelino Kubitschek, opositor do regime. No mesmo dia, os hangares da empresa foram ocupados por soldados da Aeron\u00e1utica e a Varig assumiu todas as rotas internacionais da rival.<\/p>\n<p>D \u00edvidas <\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse todo esse mar de lama, a d \u00edvida externa brasileira, que era de US$ 3,2 bilh\u00f5es em 10 de abril de 1964, passou para 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em 1984. Um crescimento de 10.000%. E at\u00e9 hoje nenhuma autoridade econ\u00f4mica da ditadura explicou este impressionante crescimento da d \u00edvida.<\/p>\n<p>Tem mais: a entidade internacional World Population apurou que, em 1979, morriam 52 crian\u00e7as por hora no Brasil. A desnutri\u00e7\u00e3o foi respons\u00e1vel, neste mesmo ano, por 52,4% dos \u00f3bitos entre crian\u00e7as de at\u00e9 cinco anos de idade e, em 1984, o pa \u00eds tinha 25 milh\u00f5es de menores carentes e abandonados. Em uma entrevista ao jornal O Globo, de 28 de junho de 1987, o pediatra Yvon Rodrigues, da Academia Nacional de Medicina, afirmou que uma pesquisa realizada pelo pr\u00f3prio governo militar, mas n\u00e3o publicada devido a seus resultados aterradores, descobriu que no Brasil  \u201c;havia fam \u00edlias que comiam ratos, crian\u00e7as que disputavam fezes&hellip; \u201c;. (A Verdade, n\u00ba 167)<\/p>\n<p>Nepotismo e superfaturamento de obras<\/p>\n<p>No governo do general Costa e Silva, os esc\u00e2ndalos aumentaram. Em seu livro Brasil, de Castelo a Tancredo, o historiador Thomas Skidmore informa que Costa e Silva foi acusado pelo general Moniz Arag\u00e3o  \u201c;de obter favores para seus parentes \u201c;.<\/p>\n<p>Emanuel da Costa e Silva, irm\u00e3o do presidente da Rep\u00fablica e funcion\u00e1rio p\u00fablico aposentado, foi nomeado aos 65 anos de idade para o cargo de ministro do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul pelo governador Peracchi Barcelos a pedido do general Costa e Silva. A indica\u00e7\u00e3o foi considerada irregular pela Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a da Assembleia Legislativa, pois o sr. Emanuel da Costa e Silva n\u00e3o possu \u00eda os requisitos exigidos por lei para o cargo -; conhecimentos jur \u00eddicos, financeiros e administrativos -; e, como aposentado, com mais de 60 anos, contrariava outra exig\u00eancia constitucional.<\/p>\n<p>Dona Iolanda, mulher do general Costa e Silva, entrou para a Hist\u00f3ria como a primeira-dama que mais festas realizou em Bras \u00edlia. Promoveu diversos desfiles no pal\u00e1cio do governo, al\u00e9m de ricos jantares e longas rodadas de p\u00f4quer no Pal\u00e1cio da Alvorada, que iam at\u00e9 o sol raiar. Dulce Figueiredo, esposa do general Figueiredo, preferia as festas no Rio. Era comum requisitar o avi\u00e3o presidencial para decolar rumo ao Rio e dan\u00e7ar em festas abrilhantadas pela presen\u00e7a do ator Omar Shariff com muito champanhe e caviar importados.<\/p>\n<p>Outro caso suspeito, mas nunca investigado, foi a compra, pelo governo militar, de 195 vag\u00f5es para a Rede Ferrovi\u00e1ria Federal da empresa norte-americana General Electric, embora o presidente da GE, Thomas Smiley, tenha confessado que pagou suborno \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da Rede Ferrovi\u00e1ria para a venda ser concretizada. O detalhe \u00e9 que, ent\u00e3o, coronel \u00e1lcio Costa e Silva, filho do ex-presidente Costa e Silva, era diretor da General Electric. Outro caso foi o superfaturamento na constru\u00e7\u00e3o da Ponte Rio-Niter\u00f3i e da Ferrovia do A\u00e7o, em 1976 e 1977, e na aquisi\u00e7\u00e3o de guindastes pelo Departamento Nacional de Vias de Navega\u00e7\u00e3o durante a gest\u00e3o do ministro M\u00e1rio Andreazza.<\/p>\n<p>Geisel, Golbery e a Dow Qu \u00edmica<\/p>\n<p>No governo do general Ernesto Geisel n\u00e3o foi diferente. Sob o argumento de desenvolver o Nordeste, o general Geisel criou o polo petroqu \u00edmico de Cama\u00e7ari, na Bahia. Mas, por tr\u00e1s dessa decis\u00e3o, estava a inten\u00e7\u00e3o de favorecer a instala\u00e7\u00e3o da Dow Qu \u00edmica, empresa da qual o general Golbery do Couto Silva foi consultor e presidente antes de se tornar ministro de Geisel. A revista alem\u00e3 Der Spiegel tamb\u00e9m denunciou a corrup\u00e7\u00e3o que envolveu a constru\u00e7\u00e3o das usinas nucleares Angra I e II, assim como o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha firmado em 1975. As usinas nucleares foram constru \u00eddas com tecnologia mais cara e ultrapassada da multinacional Westinghouse. As obras ficaram com a sempre suspeita Odebrecht.<\/p>\n<p>Em 1978, mesmo sofrendo censura, o jornal Movimento denunciou o favorecimento da empresa Jary Florestal e Agropecu\u00e1ria, de propriedade do norte-americano Daniel Ludwig, pelo governo militar, que cedeu terras p\u00fablicas da Amaz\u00f4nia para a empresa estrangeira. A den\u00fancia, tamb\u00e9m at\u00e9 hoje n\u00e3o investigada, relatava que Heitor Ferreira, secret\u00e1rio particular do presidente Geisel, foi funcion\u00e1rio do sr. Ludwig at\u00e9 assumir o cargo no governo e agiu no governo para beneficiar seu antigo patr\u00e3o.<\/p>\n<p>O Grupo Delfin<\/p>\n<p>No final de 1982, o jornalista Jos\u00e9 Carlos de Assis denunciou que o Grupo Delfin, maior empresa privada de cr\u00e9dito imobili\u00e1rio da \u00e9poca, tinha d \u00edvida de 80 bilh\u00f5es de cruzeiros com o Banco Nacional de Habita\u00e7\u00e3o (BNH). Para pag\u00e1-la, entregou dois terrenos, no valor de 9 bilh\u00f5es. Vinte dias depois da reportagem ser publicada, 30 de dezembro de 1982, ocorreu a fal\u00eancia do Grupo Delfin pela retirada de fundos realizada pelos seus clientes. Em 1983, o Banco Central decretou interven\u00e7\u00e3o no Grupo Delfin.<\/p>\n<p>Em 1991, o empres\u00e1rio fechou um acordo com o Banco Central que lhe permitia levar o que havia sobrado da Delfin, aproximadamente 300 milh\u00f5es, e pagar a d \u00edvida em 13 anos, com dois anos de car\u00eancia. Em 16 de mar\u00e7o de 2006, o Supremo Tribunal de Justi\u00e7a reconheceu como justo e apropriado o pagamento da d \u00edvida da Delfin com os dois im\u00f3veis que equivaliam a 11% do valor da d \u00edvida, e assim terminou mais um caso de corrup\u00e7\u00e3o na ditadura militar. Quase todos os ministros que serviram \u00e0 ditadura possu \u00edam dezenas de empregados dom\u00e9sticos em suas resid\u00eancias em Bras \u00edlia, onde eram promovidos jantares e festas, todas as semanas. O ministro do Trabalho, Arnaldo Prieto, tinha \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o 28 empregados dom\u00e9sticos; ele e sua fam \u00edlia consumiam por m\u00eas 954 quilos de carne, 600 quilos de arroz, 432 quilos de manteiga e 90 d\u00fazias de ovos.<\/p>\n<p>Ditadura nunca mais!<\/p>\n<p>Para garantir esse mar de lama, comunistas foram presos e perseguidos; entidades estudantis fechadas e universidades invadidas pela pol \u00edcia; sindicatos sofreram interven\u00e7\u00e3o, lideran\u00e7as sindicais foram detidas e greves proibidas. A imprensa foi amorda\u00e7ada, dezenas de jornalistas colocados na cadeia e as reda\u00e7\u00f5es invadidas por policiais para censurar os jornais; can\u00e7\u00f5es e pe\u00e7as teatrais eram censuradas todos os dias e atores e cantores eram presos. No total, a ditadura militar torturou fisicamente 20 mil pessoas, prendeu 50 mil pessoas, cassou 7 mil militares e assassinou centenas de oper\u00e1rios e camponeses.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o pense, caro leitor, que ap\u00f3s o fim da ditadura os generais deixaram de meter suas m\u00e3os no dinheiro p\u00fablico. Segundo o Tribunal de Contas da Uni\u00e3o TCU), 25 oficiais, incluindo oito generais e seis coron\u00e9is, fraudaram licita\u00e7\u00f5es, realizaram contratos superfaturados e desviaram pelo menos 15 milh\u00f5es de reais entre 2003 e 2009. Para o TCU, ocorreram fraudes em 88 licita\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito, al\u00e9m de suspeitas de roubo de materiais de constru\u00e7\u00e3o e favorecimento de empresas. Somente um dos oficiais, tido como maior respons\u00e1vel pela articula\u00e7\u00e3o das falcatruas, conseguiu formar um patrim\u00f4nio de R$10 milh\u00f5es em im\u00f3veis. Mas, tamb\u00e9m nesse caso, a impunidade impera, e nenhum general foi preso. (Carta Capital, n\u00ba 666)<\/p>\n<p>Por isso, os trabalhadores, a juventude e o povo brasileiro precisam gritar sempre e bem alto: ditadura nunca mais!<\/p>\n<p>Como eliminar a corrup\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Diante disso parece n\u00e3o haver solu\u00e7\u00e3o para combater uma corrup\u00e7\u00e3o enraizada na cultura nacional, por\u00e9m isso n\u00e3o quer dizer que ela n\u00e3o possa ser eliminada. Na verdade, n\u00e3o s\u00f3 pode, como deve. O problema e consequentemente a sua solu\u00e7\u00e3o partem da base estrutural, de forma\u00e7\u00e3o como cidad\u00e3o, que envolve ambi\u00eancia familiar, social, religi\u00e3o, economia, estrutura educacional etc. Assim para iniciar um processo de mudan\u00e7a o cerne est\u00e1, primordialmente, na educa\u00e7\u00e3o, na mudan\u00e7a de legisla\u00e7\u00e3o para evitar a impunidade, pois \u00e0 medida que se obt\u00e9m benef \u00edcios atrav\u00e9s da rede il \u00edcita de corrup\u00e7\u00e3o, renega-se os milhares de brasileiros. Tudo isso come\u00e7a agora: no partido, nas organiza\u00e7\u00f5es de massa, nos movimentos sociais, nas entidades que dirigimos, e n\u00e3o apenas ap\u00f3s a tomada do poder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante do atual cen\u00e1rio nacional um novo fen\u00f4meno vem surgindo. 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