.: Pegaram os banqueiros

O Reino Unido disparou hoje contra os banqueiros, os intocáveis dos últimos muitos anos de hegemonia absoluta das finanças na economia global. 

O ministro da Economia, Alistair Darling, anunciou uma taxa de 50% sobre os bônus pagos aos altos funcionários do sistema financeiro, na parte que exceder £25,000. Parece ser uma indicação de que esse é o teto de um pagamento decente.

Mas, atenção, não se trata de mecanismo permanente: vigora já mas só dura até 5 de abril de 2010. A "rationale" por trás da taxa é a de que os bancos tiveram ou estão tendo lucros excessivos não só nem principalmente por mérito de seus funcionários mas porque o Tesouro britânico despejou um caminhão de dinheiro para evitar que quebrassem.

O jornal "Financial Times" calcula que a taxa afetará 20 mil banqueiros, o que talvez seja um termo inapropriado. Pelo menos em português, banqueiro costuma ser associado a dono de banco. Não creio que haja 20 mil donos de bancos no Reino Unido. Tampouco seria o caso de chamá-los de bancários, só porque trabalham em bancos. Em geral, bancário ganha, se tanto, o suficiente para pagar imposto de renda. Logo, estaria fora do radar de taxa que pune lucros excessivos.

São, portanto, executivos do sistema financeiro em geral, já que a taxa não escolhe alvo: pega bancos, pega construtoras, pega até grupos que atuam no Reino Unido mas como braço de uma companhia da União Europeia.

Faz pouco, o governo calculou que, dos 20 mil a serem alcançados pela taxa, uns 5 mil recebem, só em bônus, mais de £1milhão cada (R$ 2,85 milhões).

Os banqueiros vão reagir furiosamente, mas o público certamente vai aplaudir calorosamente. Banqueiros nunca foram os campeões de popularidade, em qualquer parte do mundo. Mas o prestígio deles afundou gloriosamente com a crise porque foram considerados os grandes culpados, com aventuras especulativas obscuras, com rendimentos realmente obscenos e com um comportamento de Nero, tocando harpa enquanto Roma (o mundo) ardia.

Mas vamos ser francos: não é atacando a remuneração dos banqueiros que se vai à raiz da crise. O comportamento irresponsável do sistema financeiro só aconteceu porque o poder público, no Reino Unido como em todos os demais grandes centros financeiros, foi leniente e descuidado na regulamentação. Como não havia ninguém olhando, era inevitável que os banqueiros se atirassem a qualquer tipo de aventura, até porque eram inimputáveis.

Exceto Bernard Madoff, que cometeu crimes e não apenas irresponsabilidades, ninguém foi preso.

A decisão do governo britânico parece, pois, muito mais voltada para satisfazer o público e, com isso, tentar perder de maneira menos feia a eleição do ano que vem. A correção dos problemas é politicamente menos vistosa: estará, se tudo der certo, na regulação que os diferentes braços do BIS (Banco de Compensações Internacionais, ou o banco central dos bancos centrais) estão finalizando. O que tem mais apelo público: taxar ganhos de banqueiros ou criar "colchão de capital", uma das medidas definidas pelo BIS?

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